Casa de Tijolo
Primosfera
4’ 15”
Written by João de Sousa
Director, DP, Editor João de Sousa
Produced by LeJoy
Voice Catarina Wallenstein
Assistant Cinematographer João Castela
Agosto 2019, Melides. Era o meio do dia e estavam perto de quarenta graus debaixo do sol. Procurava-mos imagens para o filme Prefácio, na Casa de Tijolo ainda em fase de construção. Entro naquilo que parecia ainda ser só a estrutura crua em tijolo nu do que eventualmente viria a ser uma casa, e sinto a temperatura baixar pelo menos uns dez graus. De repente estava fresco, sem ar condicionado ou ventilação, só o poder funcional da arquitectura aliada a um material de construção ancestral, a evocar aquela temperatura do interior das igrejas e capelas ou das mesquitas marroquinas.
A ideia deste sítio começou aí a tornar-se clara, principalmente quando inserida na tapeçaria de ideias que já tinha começado a montar sobre os princípios que sustentam os projectos da Primosfera. Nesse dia, fizeram-se as imagens que estão no capitulo terceiro do filme Prefácio, onde se evoca o poder da obra, e onde as paredes de tijolo de Melides são retratadas de forma abstracta, conceptual, como se só de enormes paredes e aberturas de tijolo se tratassem.

Um ano depois, também no Verão, já a casa está habitada. Não à procura de imagens desta vez, apenas de passagem, a propósito de uma qualquer circunstância. Entro e interrompo um final de almoço tardio, com várias pessoas à volta de uma mesa comprida ao longo de um dos pátios externos da casa, semi-coberto por uma hera ainda demasiado jovem para fazer sombra. A hera, a relva no chão dos pátios e o mobiliário eram as únicas diferenças. As paredes, as texturas e os espaços estavam todos exactamente como na primeira vez, no entanto deixara de parecer a estrutura crua de algo em processo que tinha visto um ano antes. Era uma casa agora.

A Casa de Tijolo começou como projecto de filme no inicio de 2020. A proposta era simples — documentar o tempo, o conhecimento e a arte do método de produção artesanal dos tijolos que estão na base do projecto deste edifício.
Desenhou-se assim o caminho: O tijolo como unidade — simples e elementar mas contendo em si já todos os genes de algo muito maior — uma metáfora para a família.
E narrou-se a sinopse: Numa olaria, um artesão solitário produz, ao ritmo da Terra, um tijolo maciço segundo o método artesanal, mas esse tijolo não é o fim, é o começo.
No coração do Alentejo encontrei a “fábrica” de tijolo. Num terreno perto das margens do Alqueva, uma cobertura onde prateleiras de tijolos secam à sombra, rodeia um forno, também ele construído dos mesmos tijolos que coze. E como se o local só não chegasse, todo o processo é um convite ao registo cinematográfico.
O ritmo é o do Alentejo, mais do que lento, é o da Terra. A receita, a mais simples — água e terra formam cada tijolo, que seca à sombra, por quantos dias precisar até estar pronto para cozer. O fogo que leva o forno acima dos 1000 graus centígrados, é alimentado por troncos de sobreiros e guardado por um homem só durante todo o dia e toda a noite.

Mas o filme tem dois momentos. Se no primeiro, o foco está no interior da olaria, no artesão, nas matérias e nos sons que ali habitam, no tempo que ali se consome; o segundo momento começa onde o primeiro acaba, com o fogo onde o tijolo se coze. Com esse fogo, hipnótico, contrasta o ambiente pacífico e rural do vale onde a casa está e que invade estes espaços, através das muitas de aberturas do edifício. À medida que percorremos a casa, o texto evoca esta contradição entre a simplicidade de uma peça tão elementar, e no entanto tão fundamental para atingir algo maior, numa linha cantada, estrófica, reforçando o sentido da repetição, do tempo, do caminho que se percorre para se chegar a um todo – esse algo maior, que aqui é a “Casa de Tijolo”.
Photography, Words João de Sousa
Produced by LeJoy
Branding and Book Pacifica
Client Primosfera

© 2022


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